história do azulejo

A expressão azulejo denomina uma peça de cerâmica de pouca espessura, comumente quadrada, em que uma das faces é vidrada, resultado da cozedura de um revestimento geralmente denominado como esmalte, que se torna impermeável e brilhante. A face pode ser monocromática ou policromática, lisa ou em relevo. O azulejo é usado em grande número como elemento associado à arquitetura em revestimento de superfícies interiores ou exteriores ou como elemento decorativo.

Os temas são variáveis, como de relatos de episódios históricos, cenas mitológicas, iconografia religiosa e uma extensa gama de elementos geométricos, vegetalistas aplicados à parede, pavimentos e tetos de palácios, jardins, edifícios religiosos, de habitação e públicos.

Com diferentes características entre si, o azulejo tornou-se elemento de construção divulgado em diferentes países, assumindo-se em Portugal como importante suporte para a expressão artística nacional ao longo de mais de cinco séculos, onde o azulejo transcende para algo mais do que um simples elemento decorativo de pouco valor intrínseco.

O material é usado pelo seu baixo custo, pelas suas fortes possibilidades de qualificar esteticamente um edifício de modo prático. Mas nele se reflete, além da luz, o repertório do imaginário, a sua preferência pela descrição realista, a sua atração pelo intercâmbio cultural. De forte sentido cenográfico descritivo e monumental, o azulejo é considerado, hoje, como uma das produções mais originais da cultura portuguesa, onde se dá a conhecer, como em um extenso livro ilustrado de grande riqueza cromática, não só a história, mas também a mentalidade e o gosto de cada época.

Atualmente, a procura por azulejos tem se dado por seu valor decorativo e menos por suas características impermeabilizantes, mas ainda muito utilizado em cozinhas, banheiros e demais áreas hidráulicas.

Origens e expansão

Mosaico bizantino, c. 547, Ravenna, Itália.

 

A palavra azulejo tem origem no árabe azzelij (ou al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco), que significa pequena pedra polida usada para designar o mosaico bizantino do Próximo Oriente. É comum, no entanto, relacionar-se o termo com a palavra azul (termo persa لاژورد: lazhward, lápis-lazúli) dado grande parte da produção portuguesa de azulejo se caracterizar pelo emprego maioritário desta cor, mas a real origem da palavra é árabe.

A utilização do azulejo pode-se observar já na Antiguidade, no período do Antigo Egito e na região da Mesopotâmia, alastrando-se por um amplo território com a expansão islâmica pelo norte da África e Europa (zona do Mediterrâneo), penetrando na Península Ibérica no século XIV por mãos mouras, que levam consigo a origem do termo atual. O oriente islâmico impulsiona qualitativamente a produção de revestimentos pelo contato com a porcelana chinesa, que, pela Rota da Seda, surge em vários centros artísticos do próximo oriente. Durante a permanência islâmica na Península Ibérica, a produção do azulejo cria bases próprias na Espanha, por meio de artesãos muçulmanos, e desenvolve-se a técnica mudéjar entre o século XII e meados do século XVI em oficinas de Málaga, Valência (Manises, Paterna) e Talavera de la Reina, sendo o maior centro o de Sevilha (Triana). Na virada do século XV para o século XVI, o azulejo atinge Portugal, um país já com uma longa experiência em produção de cerâmica. Inicialmente importado da Espanha, o azulejo é, mais tarde, empregado como resultado de manufatura própria, não só no território nacional, mas também em parte do antigo império, de onde absorve, simultaneamente, uma grande influência (Brasil, África, Índia).

Com as suas respectivas variantes estéticas, o azulejo vai ser utilizado em outros países europeus como os Países Baixos, a Itália e mesmo a Inglaterra, mas em nenhum outro acaba por assumir a posição de destaque no universo artístico nacional, a abrangência de aplicação e a quantidade de produção atingidas em Portugal.

O azulejo em Portugal – Herança islâmica

No ano de 1498, o Rei de Portugal D. Manuel I viaja à Espanha e fica deslumbrado com a exuberância dos interiores mouros, com a sua proliferação cromática nos revestimentos parietais complexos. É com o seu desejo de edificar a sua residência à semelhança dos edifícios visitados em Saragoça, Toledo e Sevilha que o azulejo hispano-mourisco faz a sua primeira aparição em Portugal. O Palácio Nacional de Sintra, que serviu de residência do rei, é um dos melhores e mais originais exemplos desse azulejo inicial ainda importado de oficinas de Sevilha em 1503 (que até então já forneciam outras regiões, como o sul de Itália).

Azulejos com motivo de esfera armilar no Pátio da Carranca, Palácio Nacional de Sintra.

 

Embora as técnicas arcaicas (alicatado, corda-seca, aresta) tenham sido importadas, assim como a tradição decorativa islâmica, dos excessos decorativos de composições geométricas intrincadas e complexas, a sua aparição em Portugal cede já um pouco ao gosto europeu pelos motivos vegetalistas do gótico e a uma particular estética nacional fortemente caracterizada pela influência de fatores contemporâneos. O Império Ultramarino Português vai contribuir para a variedade formal; vão ser adaptados motivos e elementos artísticos de outros povos que se transmitem pelo curso da aculturação. Um dos exemplos mais marcantes do emprego de ideias originais é o do motivo da esfera armilar que surge no Palácio Nacional de Sintra e que vai permanecer ao longo da história portuguesa como o símbolo da expansão marítima português.

A majólica e o início da produção

A majólica, nova técnica vinda de Itália que permite pintar diretamente no azulejo vidrado, é introduzida na Península Ibérica nos finais do século XV pela mão do artista italiano Francisco Niculoso. Sem grande impacto, vai ganhar importância mais tarde, após o estabelecimento de artistas italianos na Flandres (Antuérpia) e na França. A criação de oficinas em Espanha e Portugal por ceramistas flamengos vai dar origem, a partir de meados do século XVI, à iniciativa de produção própria do azulejo, que era até então importado da Holanda e Itália.

Mas, além da técnica, também o repertório formal vai ser importado, e o gosto italiano da época renascentista de transição para o maneirismo funde-se com o estilo gráfico flamengo em uma estética harmoniosa e de pincelada minuciosa. As composições passam a ser figurativas e, renunciando à estética islâmica como resultado do Concílio de Trento, vão-se adaptar e transpor para o azulejo cenas mitológicas, de alegorias, religiosas, guerreiras e satíricas presentes em gravuras estrangeiras. Vão ser usadas representações de elementos arquitetônicos na criação de ilusões espaciais (trompe-l’oeil, literalmente engana o olho) e a variada paleta de elementos decorativos maneiristas ganha vida no painel de azulejo em Portugal (putti - anjinhos, grinaldas, medalhões, troféus, vasos, frutas e flores). Concorrendo com a pintura mural, o azulejo dessa época é suporte para o traço erudito dos mestres do desenho e da pintura. Artistas portugueses de destaque são Francisco de Matos e Marçal de Matos.

Padrões geométricos e assimilação de motivos externos

Em um plano paralelo, produz-se um outro gênero estético de azulejo com igual força decorativa, mas menos dispendioso, à medida das necessidades do clero. O azulejo enxaquetado é usado como revestimento de grandes superfícies em igrejas e mosteiros e não necessita de representações únicas e diferenciadas. Aplicadas entre os séculos XVI e XVII, essas composições são formadas, principalmente, por azulejos monocromáticos em alternâncias de duas cores (branco-azul ou branco-verde), onde se revela uma malha de força diagonal e grande dinamismo visual. A introdução do azulejo de padrão reduz a morosidade do processo anterior pela repetição de módulos de azulejos em grandes superfícies.

Com a perda da independência nacional e a consequente Guerra da Restauração, o azulejo tem uma época baixa como reflexo da crise social e as composições únicas decrescem para dar lugar ao azulejo de padrão inspirado nos tecidos estampados indianos e tapetes persas com forte carácter ornamental, o azulejo de tapete. Neste gênero colorido (azul, amarelo e verde), bem ao gosto português pelo exótico, proliferam os motivos florais, lóbulos, representações fantásticas e do paraíso, delimitadas por molduras e faixas em comunhão com elementos da temática religiosa. Vêm substituir os tais tecidos originais nos frontais de altar, revestindo também grandes superfícies nos interiores de igrejas, onde apenas pequenos painéis (chamados registos) com cenas figurativas e de santos surgem como apontamento a intercalar a malha do padrão.

São ainda de ressaltar, no século XVII, os chamados grotescos, gêneros de influência italiana divulgada na Europa, de presença curta, mas de destaque na azulejaria portuguesa. Consistem em cenas burlescas, fantásticas, inseridas em um contexto sem nexo, caótico, mas de traçado realista. Mesmo tratando-se de repertórios importados, reproduzidos por meio de gravuras, estas temáticas, ampliadas à escala da azulejaria de grande formato, vão adaptar-se bem ao espírito português conturbado da época filipina.

Também importado, como consequência do processo de assimilação das coleções de gravuras do norte da Europa, mas de temática diferente, é o motivo da albarrada de origem flamenga. Estas representações de jarras com flores ganham, em Portugal, uma traçado mais liberto que no local de origem.

 

Revestimento a azulejo estampilhado oitocentista na Igreja de São Martinho, Argoncilhe.

 

A transição formal e a grande produção

Com a Restauração da Independência em 1640, a nobreza ganha novo ímpeto no território nacional, e encomenda-se a construção de diversos edifícios palacianos para residência que vão exigir um grande número de azulejos para revestir superfícies em interiores e jardins. Vão se destacar as composições policromas (amarelo, azul e também apontamentos em verde e castanho) de tradição holandesa. Cenas de caça, idílicas e cenas sobre a temática holandesa dos cinco sentidos onde vários personagens à mesa fazem referência indireta aos diferentes sentidos (música para a audição, bebidas e alimentos para o paladar, os toques que trocam entre si para o tato etc.).

Também na segunda metade do século XVII, aparecem as famosas composições de macacaria em tons predominantemente amarelos e azuis, representando macacos em trajes e atividades humanas de grande sentido irônico e satírico, como que em uma caricatura moral dos reais protagonistas que imitam costumes sem os compreender. Esta temática teve a sua primeira aparição já no século XV, mas só recebe impulso no século XVII pela mão do pintor flamengo David Teniers, e estende-se pelos séculos XVIII e XIX.

Azulejos no Jardim do Paço, Castelo Branco.

 

A partir dos finais do século XVII, importam-se também dos Países Baixos ciclos em azul e branco influenciados pela cerâmica chinesa, nos mesmos tons, que chegou à Europa pelos caminhos marítimos e que agradou bastante, não só aos holandeses, que iniciaram uma produção própria de azulejo azul e branco, mas também aos portugueses. Mas a preferência na Holanda pelo trabalho em miniatura (enkele tegels) não corresponde ao gosto português pela monumentalidade e assim passam-se a efetuar encomendas específicas às oficinas holandesas de painéis que se adaptem perfeitamente aos enquadramentos arquitetônicos em Portugal. Os temas centram-se, agora, em cenas religiosas, cortesãs e militares. Desta altura são também os painéis de figura avulsa, com cenas independentes, e que vão ser aplicados, sobretudo, em cozinhas e sacristias de igrejas e conventos (como as típicas representações de alimentos pendurados, caça ou peixe).

O emprego de uma só cor, azul, sobre o fundo branco permite uma maior concentração na pintura, e os exemplos importados da Holanda demonstram bem a superioridade técnica do traço, evidentes em obras de Willem van der Kloet e Jan van Oort. Mas as oficinas portuguesas vão reagir à concorrência e inicia-se o período de desenvolvimento da produção nacional, conhecido pelo Ciclo dos Mestres, impulsionada pelo espanhol Gabriel del Barco, sediado em Portugal, e que responde a um grande número de encomendas um pouco por todo o país. A sua técnica não é de grande qualidade, mas uma série de seguidores vai dar início à época dos grandes mestres das oficinas de Lisboa, como António Pereira, António de Oliveira Bernardes e o seu filho Policarpo de Oliveira Bernardes, Manuel dos Santos e o anônimo P.M.P., abandonando-se progressivamente as importações do exterior.

A partir da segunda metade do século XVIII, o número de encomendas aumenta (também vindas do Brasil), e a riqueza durante o reinado de D. João V (proveniente das minas de ouro e diamantes do Brasil) permite o aumento sem precedentes da produção de azulejo, de onde resultam os maiores ciclos de painéis historiados. Esta estética é, acima de tudo, influenciada pelo Barroco, onde as cenas ganham um estatuto teatral e onde as molduras, de carácter exuberante, chegam a ter quase tanto peso como as cenas centrais que envolvem (cenas bucólicas, mitológicas, religiosas, bíblicas, marianistas, de caçadas, do cotidiano cortesão e alegóricas). A riqueza ornamental, que faz uso dos contrastes claro-escuro para ilusão de volumetria, chegam de livros de ornamentos de Jean Bérain I, Claude Audran III, Gilles Marie Oppenord, Nicolas Pineau, Pierre Lepautre, entre outros, e oferecem grande organicidade e vitalidade ondulante à composição no seu todo. Vão proliferar os côncavos e convexos, concheados, flores, frutos, cartuchos, entrelaçados, putti, baldaquino, efeitos ilusionistas arquitetônicos (balaustradas) e as figuras de convite.

Nas igrejas, o azulejo reveste todas as superfícies, mesmo tetos e abóbadas, e observa-se um complemento estético entre a talha dourada do período barroco português e as molduras ondulantes do azulejo.

Até ao terremoto de 1755, vão ter posição de relevo os seguintes nomes da azulejaria portuguesa: Nicolau de Freitas, Teotônio dos Santos, Valentim de Almeida e Bartolomeu Antunes.

A influência do estilo rococó vindo da França vai se refletir no gosto estético do azulejo em meados do século XVIII. Regressa a policromia (inicialmente amarelo, verde e violeta, mais tarde cenas centrais monocromáticas a violeta), ornamentos, baseados nos livros de concheados de Gideon Saint, sofrem um metamorfose tornando-se mais leves e graciosos. As molduras perdem grande parte da sua massa volumétrica e assume-se a assimetria em motivos de flores e folhas. As gravuras de Watteau ditam a temática das cenas galantes, bucólicas e idílicas que se inserem na perfeição em jardins.

Com o terremoto de 1755, a necessidade imprevista da reconstrução da cidade de Lisboa vai levar à retomada do azulejo de padrão, que, como material de baixo custo, permitirá a aplicação rápida nas fachadas dos edifícios e ao mesmo tempo elevar o seu efeito estético. Vão-se observar pequenos painéis de registo em fachadas, representações de padroeiros de proteção contra catástrofes naturais, e, em frisos de portas e janelas, já a introdução da estética neoclássica de caráter mais racional e quase desprovido de decoração. Este tipo de azulejo fica conhecido como azulejo pombalino, como referência ao Marquês de Pombal, responsável pela reconstrução da cidade. Uma das fábricas com importante papel na reconstrução de Lisboa foi a Fábrica Sant'Anna, fundada em 1741. Essa fábrica ainda se mantém ativa produzindo azulejo e faianças por meio de processos inteiramente manuais.

Do Romantismo ao azulejo contemporâneo

 

Painel de azulejos publicitários em um edifício de Abrantes.

 

Com as Invasões francesas, a Corte Portuguesa refugia-se no Brasil, e o início do século XIX traz estagnação à produção de azulejos destinado a obras régias no território português. Porém, segundo J. M. Santos Simões, no Brasil, o emprego do azulejo terá tido um desenvolvimento paralelo autônomo e, desde finais do século anterior, observava-se, especialmente ao norte do país, a aplicação do azulejo como revestimento total de fachadas de edifícios. Nos últimos anos, esta tese tem sido contestada, por falta de provas concretas. Ainda assim, refira-se que tal suposto fenômeno ocorrido no Brasil teria tido a sua principal origem, ainda segundo Santos Simões, nas condições climáticas, pois o azulejo assume-se como elemento impermeável, protetor contra chuvas intensas, possibilitando, simultaneamente, o arrefecimento do interior, por refletir o calor. Contudo, esta causa, apontada por Santos Simões como mera hipótese explicativa e que foi tomada como tese provada nos seguintes, tem sido contestada por constituir uma visão simplista do fenômeno. Na tese de doutoramento de Ana Margarida Portela Domingues, de 2009, faz-se notar que os maiores núcleos da azulejaria de revestimento completo em fachadas nem sequer coincidem com as zonas mais quentes e chuvosas, não só em Portugal, como no Brasil. Por outro lado, a ideia de que estes primeiros supostos revestimentos oitocentistas no Brasil eram inicialmente brancos e depois desenvolveram-se para padrões simples em duas cores, também não está provada e parece refletir certa confusão entre revestimentos para interiores (nomeadamente para cozinhas), e revestimentos para exteriores.

A partir de alguns textos mais superficiais sobre a produção de azulejos, infere-se que a decadência das oficinas de Lisboa resultou em que o fornecimento de azulejos para o Brasil tenha sido feito pela Inglaterra, França e Holanda. Porém, aquilo que tem sido demonstrado nos últimos anos, nomeadamente por Cavalcanti/Cruz, é que as primeiras fachadas azulejadas no Brasil tiveram azulejo português (salvo raras exceções) e só depois começou a surgir a influência inglesa, francesa, dos Países Baixos, e até mesmo espanhola. Aliás, a ideia, proposta provisoriamente por Santos Simões, de que a produção de azulejo em Portugal, sensivelmente após 1834, renasceu para fazer frente às encomendas brasileiras, tem sido colocada de lado nos últimos anos, por constituir uma falácia. Na verdade, os indícios que foram apresentados em estudos mais recentes (quer no Brasil, por Dora Alcântara, quer em Portugal, por Ana Margarida Portela Domingues), demonstram que a produção do azulejo em Portugal não renasceu de um qualquer declínio, mas sim foi-se alterando nos pressupostos estéticos e de aplicação. E isso não sucedeu por causa da procura brasileira, até porque as primeiras fachadas principais brasileiras totalmente resvestidas com azulejos não são mais antigas que as suas congêneres portuguesas. Por conseguinte, foi a procura portuguesa, e não brasileira, que motivou um novo tipo de produção azulejar, a qual, no Brasil, foi também copiada e, inicialmente, sobretudo por migrantes portugueses, recorrendo à produção das fábricas portuguesas.

Fábrica Viúva Lamego, Lisboa.

 

Casa do Ferreira das Tabuletas, Rua da Trindade, Lisboa.

Daí que outro lugar-comum, já colocado de parte nos últimos anos, é o de que, com o regresso de um grande número de migrantes portugueses enriquecidos ao território de Portugal, o gosto pelas fachadas totalmente azulejadas teria sido implementado em Portugal, principalmente na região do Porto. Na realidade, tal gosto era português, e não brasileiro. Por outro lado, não é correto reduzir o fenômeno da azulejaria de fachada a uma região, pois se trata de um fenômeno urbano e tendencialmente cosmopolita, razão pela qual o maior mercado de azulejaria de fachada foi a própria cidade de Lisboa.

As fachadas revestidas a azulejo produzido por meio dos novos métodos de produção semi-industriais e industriais (nomeadamente a estampilhagem) provocaram diferentes reações. Por um lado, foram encaradas como uma deturpação dos revestimentos que pertenciam ao intimismo do interior da habitação. Por outro lado, reconheceu-se o seu potencial de valorização estética dos exteriores, fato que, hoje em dia, ainda é mais notório, constituindo uma imagem de marca da arquitetura urbana portuguesa do período romântico.

Esta questão do modo como, no Romantismo, encaravam-se as fachadas azulejadas, durante anos enfrentou uma análise muito superficial e preconceituosa. Com base na sátira de alguns romancistas do período romântico mais avançado, expressões como "casas de penico" e outras foram transformadas em verdades quase universais sobre o modo como o azulejamento completo de fachadas era entendido na época. Ora, recentemente, esta questão tem merecido análises mais aprofundadas, nomeadamente por meio da tese de doutoramento de Ana Margarida Portela Domingues. A autora demonstra que as apreciações negativas à azulejaria de fachada não eram generalizadas e tiveram o seu auge em certas épocas e em certos meios sociais, derivando, sobretudo, de alguns fatores, tais como: o modo como os padrões eram conjugados; o local onde eram aplicados; a conjugação dos azulejos com outros elementos estéticos exagerados, revelando possível mau gosto, e, principalmente, a datação dos azulejamentos, pois as elites começaram a entender o fenômeno do azulejamento completo de fachadas como excessivo, precisamente quando os novos ricos e, depois, a classe média, se apropriam de tal solução para revestir fachadas que, pelas suas características, não necessitavam ser amenizadas.

Muitas das vezes coincidente com o fenômeno da azulejaria de fachada, foi o fenômeno da decoração de platibandas e balaustradas com elementos cerâmicos decorativos, desde os próprios balaustres, a vasos e estátuas alegóricas, assim como arabescos. Em alguns casos, também foram produzidos calões decorativos para beirais, que hoje são já peças bastante raras, podendo ser encontrados alguns exemplares em Portugal e no Brasil.

As principais fábricas portuguesas de produção de azulejos, na segunda metade do século XIX foram: a Fábrica Roseira, a Fábrica da Calçada do Monte e a Fábrica Viúva Lamego – em Lisboa; a Fábrica de Santo Antônio do Vale da Piedade, a Fábrica de Massarelos, a Fábrica do Carvalhinho e a Fábrica de Cerâmica das Devesas – no Porto/Vila Nova de Gaia.

Palácio dos Azulejos, Campinas.

Com a introdução da linguagem romântica em Portugal, é dado maior realce à produção artística de diversas épocas anteriores, como se pode observar na obra de Luís Ferreira (conhecido também como Ferreira das Tabuletas), que combina os novos métodos com a temática do século anterior, ou do tardo-romântico Jorge Colaço, com ênfase no historicismo. Porém, esta evocação dos estilos antigos diz respeito ao azulejo figurativo. O Romantismo, na azulejaria portuguesa, é feito de azulejo de padrão, para amenizar fachadas urbanas, tal como o papel de parede foi introduzido, nessa mesma época, para amenizar os interiores.

Entrando já no século XX, são de destacar Rafael Bordalo Pinheiro, com produções ecletistas com para o enaltecimento histórico nacional, Paolo Ferreira e Jorge Barradas (impulsionador da renovação no domínio da cerâmica e do azulejo). Já em meados do século, Maria Keil realiza um vasto trabalho para as 19 estações iniciais do metrô de Lisboa, mas devem também assinalar-se obras de Júlio Resende, Júlio Pomar, Sá Nogueira, Carlos Botelho, com diferentes projetos de valorização urbana, João Abel Manta, Eduardo Nery, entre outros.

Para preservar e estudar a azulejaria portuguesa foi criado o Museu Nacional do Azulejo.

Técnicas de azulejaria

Por tipo de produção

Azulejo mudéjar (ou hispano-mourisco)

Técnica desenvolvida e implementada pelos mouros na Península Ibérica e muito seguida na Espanha com assimilação do gosto pela decoração geométrica e vegetalista, no que se designaria no barroco como horror vacui (horror ao vazio).

Essa técnica necessita de um barro homogêneo e estável, onde, após uma primeira cozedura, cobre-se a peça com o líquido que fará o vidrado. Os diferentes tons cromáticos obtêm-se a partir de óxidos metálicos: cobalto (azul), cobre (verde), manganésio (castanho, preto), ferro (amarelo), estanho (branco). Para a segunda cozedura, as peças são colocadas horizontalmente no forno assentes em pequenos tripés de cerâmica designados trempe. Estas peças deixam três pequenos pontos marcados no produto final, hoje em dia importantes na avaliação de autenticidade.

Inicialmente, o azulejo não tinha uma dimensão normalizada, mas, em Portugal, a partir do século XVI, passou a ter uma medida quadrada variável entre 13,5 e 14,5 cm, como consequência do aumento de produção pelo maior número de encomendas. Essa situação perdurou até o século XIX.

Alicatado

Técnica para revestimentos em que se agrupam pedaços de cerâmica vidrada cortados em diferentes tamanhos e formas geométricas com a ajuda de uma turquez. Cada pedaço é monocromático e faz parte de um conjunto de várias cores que pode ser mais ou menos complexo, semelhante ao trabalho com mosaico. Essa técnica esteve em voga nos séculos XVI e XVII, mas, pela morosidade de sua confecção, acabou substituída por outras técnicas posteriores.

 

                 Azulejo alicatado em El-Hedine, Marrocos.

Corda-seca

Técnica do final do século XV e início do XVI em que a separação das cores ou motivos decorativos é feita abrindo sulcos na peça, preenchidos com uma mistura de óleo de linhaça, manganês e matéria gorda, evitando que haja mistura de cores durante a aplicação e a cozedura.

Aresta (ou Cuenca)

Técnica do período da corda-seca em que a separação das cores é feita levantando arestas (pequenos muros) na peça, que surgem ao pressionar o negativo do padrão (molde de madeira ou metal) no barro ainda macio. Esse processo mais simplificado reduz o preço do produto acabado e permite maior variedade de padrões, embora o acabamento nem sempre seja perfeito. Com os maiores centros de produção em Sevilha e Toledo, a técnica foi também utilizada em Portugal, onde se desenvolve a variante em alto-relevo (azulejo relevado). Existem também os raros exemplos de azulejo de "lustre" ou lustrina , em que o seu reflexo metálico final é conseguido colocando uma liga de prata e bronze sobre o vidrado, que é depois cozido uma terceira vez em baixa temperatura, fato que não é muito usual neste tipo de azulejo.

 Azulejo de aresta em Fez, Marrocos.

Majólica

Técnica vinda de Itália e introduzida na Península Ibérica em meados do século XVI. Não é simples clarificar a origem do termo; talvez uma locução italiana para Maiorca, porto de onde eram exportados os azulejos, ou uma metamorfose do termo Opera di Mallica usado desde o século XV para designar a mercadoria italiana exportada do Porto de Málaga. O termo faiança, utilizado a partir do século XVII, tem origem no centro italiano Faenza, onde era produzida essa cerâmica.

A majólica veio substituir a pintura sobre a peça já cozida, a qual era depois vidrada. Foi revolucionária porque, após a primeira cozedura, é colocada sobre a placa um líquido espesso (branco opaco) à base de esmalte estanífero (estanho, óxido de chumbo, areia rica em quartzo, sal e soda) que vitrifica na segunda cozedura (vidro opaco). O óxido de estanho oferece à superfície (vidrado) uma coloração branca translúcida na qual é possível aplicar diretamente o pigmento solúvel de óxidos metálicos em cinco escalas de cor: azul cobalto, verde bronze, castanho manganésio, amarelo antimônio e vermelho ferro (que, por ser de difícil aplicação, pouco surge nos exemplos iniciais). Os pigmentos são imediatamente absorvidos, podendo posteriormente fazer correções. O azulejo é, então, colocado novamente no forno, revelando, só após a cozedura, as respectivas cores utilizadas.

Por técnica de decoração

  • Azulejo aerografado (ou decoração ao terceiro fogo): pintura do azulejo por meio de um aerógrafo (pistola de jato de tinta) em que estampilhas de zinco delimitam as áreas a pintar. Em Portugal, a Fábrica de Sacavém empregou bastante essa técnica durante o período Art Déco.
  •  Azulejo esgrafitado: técnica em que os elementos decorativos são "abertos" no vidrado, raspando-se com um estilete até aparecer o biscoito (base do azulejo). As ranhuras que resultam deste processo podem ser preenchidas com betume ou cal da cor que se deseje.

 Azulejo esgrafitado com arabescos, Meknes, Marrocos.

 

  • Azulejo esponjado: aplicação da tinta por meio de uma esponja ou escova, em que o resultado se assemelha a uma superfície de pedra (rugosa). Com utilização a partir do século XVIII, tem maior aplicação em rodapés e lances de escada.
  • Azulejo estampado (ou impressão à talhe doce): decoração da superfície vidrada por meio da utilização de um decalque ou decalcomania.
  • Azulejo estampilhado: decoração da superície vidrada com trincha mediante a utilização de uma estampilha, uma peça de metal onde está recortado o motivo decorativo a pintar.
  • Decoração ao grande fogo: pintura sobre o vidrado remetida posteriormente a uma cozedura com temperaturas superiores a 1.200 °C.
  • Decoração com 3º fogo: pintura com cor sobre a base do azulejo ou vidrado submetida a uma cozedura com temperatura moderada.

Por tipo de decoração/temática

  • Albarrada: motivo decorativo independente (século XVII) que pode ser repetido (século XVIII) e que consiste em ramos de flores em jarra, cesto, vaso ou taça com outros elementos figurativos (pássaros, crianças ou golfinhos). Caso seja repetido, por exemplo, ao longo de um silhar, pode ter outros elementos a servir de divisão (arquitetônicos ou vegetalistas).

 Albarrada com motivos florais em silhar na Casa dos Patudos, Alpiarça.

  • Alminhas: painel de azulejos de dimensões reduzidas, ou como elemento autônomo, com decoração alegórica representando as almas no purgatório. A base pode apresentar as iniciais P.N (Padre-Nosso) ou A.V. (Ave-Maria).
  • Atlante: figura escultórica masculina muito utilizada na antiguidade clássica em substituição do fuste em uma coluna. É muito utilizado como motivo decorativo em painéis de azulejos nos séculos XVII e XVIII.
  • Azulejos enxaquetados: agrupamento de azulejos a formar uma malha geométrica em xadrez utilizando elementos alternados de cores diferentes. Também aplicado em Portugal no século XVI até meados do século XVII.
  • Azulejo de figura avulsa: em que cada azulejo representa um elemento isolado (flor, animal etc., ou até mesmo descrição de cenas mais complexas). Em Portugal, divulgou-se mais o gênero de figura simples a azul cobalto durante o século XVIII com elementos decorativos nos cantos a ajudar à união visual entre os vário azulejos. Colocados sobretudo em lances de escada, encontram-se também aplicados à arquitetura religiosa e com temas populares durante o Estado Novo já no século XX. Os elementos mais complexos foram divulgadas por meio do azulejo holandês.

 Conjunto azulejar azul e branco composto por motivo de dezesseis peças. Igreja Matriz de Argoncilhe.

  • Azulejos de padrão: azulejos em grupos de 2x2 até 12x12 que formam uma determinada composição e que, depois de repetidos várias vezes, formam um padrão (p.ex, azulejos de tapete).
  • Azulejo de tapete: azulejos em grande número, em revestimento parietal, que, pela multiplicação de determinados modelos, resultam um padrão policromo.  Pode ser rematado com frisos, barras ou cercaduras apresentando-se no seu conjunto total semelhante a um tapete.Azulejos de padrão com faixa no Paço de São Cipriano, Tabuadelo.

     

  • Balaústre: pequena coluna usada como elemento arquitectônico em balaustradas e que se assume como motivo decorativo em azulejos do século XVIII de modo a criar efeitos espaciais ópticos.
  • Barra: Remate horizontal e vertical (p.ex. em painéis) compostos por duas ou mais filas de azulejos adjacentes com motivos decorativos variados. Com a mesma função, a cercadura é composta por uma só fileira de azulejos. A faixa é composta por meios azulejos (peças retangulares) e pode servir ou não de remate a um painel.
  • Cartela: motivo decorativo com apogeu no Barroco que serve de fundo a determinada imagem ou cena de modo a destacá-la dos elementos circundantes. Pode ter a forma de um pergaminho ou escudo em que os cantos enrolados ou decorações vegetalistas servem de moldura.
  • Figura de convite: característica dos séculos XVIII e XIX, esta figura representa uma pessoa (lacaio, dama, guerreiro etc.) trajado a rigor e posicionado em locais de entrada de uma habitação nobre (átrio, patamar de escada etc.) em gesto de boas vindas, como que a receber as visitas que chegam. Símbolo do protocolo aristocrático, do poder e riqueza. Produzida em tamanho real com o contorno recortado e geralmente crescendo a partir de um silhar.
  • Painéis historiados: painéis descritivos representando determinado acontecimento ou cena histórica, religiosa, mitológica ou do cotidiano.

 Painel historiado do cerco ao Castelo de Torres Novas, painel de Gil Pais, Torres Novas.

 

Referências

AA. VV. Património azulejar de Setúbal e Azeitão. Setúbal: Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2008. ISBN 978-972-9339-09-7

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ARRUDA, Luísa. Caminho do Oriente: Guia do Azulejo. Lisboa: Livros Horizonte, 1998. ISBN 972-24-1042-3[1]

CALADO, Margarida, SILVA, Jorge Henrique Pais da. Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura, Barcarena, Editorial Presença, 2005. ISBN 972-23-3336-4

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